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Nada faz tanto sentido, agora abro a janela e tudo o que eu vejo são rostos tristes de pessoas perdidas. Não digo perdido no sentido de não saber aonde está, digo de quem não sabe quem é, considero isso bem mais triste. Vi tanta gente se perder por tão pouco, mesmo com tantas oportunidades aparentes escolher o pior, meu deus do céu até eu. Eu me tornei o que sempre afirmei aos berros que não seria, prometi pra ti que não te deixaria mas fui a primeira pessoa a te abandonar. E tu precisava de mim, implorou aos deuses para que eu ficasse, mas a tristeza já havia me cegado e eu me entreguei ao desespero. Corri. Me sentia uma granada, precisei correr, quanto mais longe eu estivesse menor seria o número de feridos. Talvez eu me preocupasse demais, talvez era o mais correto a se fazer. Mas quem diabos me diria o que é certo? Lá estava eu, com um cigarro no meio dos dedos, e a minha maior companhia um toca discos velho que tocava suavemente arctic monkeys, enquanto eu afundava. Afoguei-me. Chorei, mas nada adiantou, eu sabia que eu tinha virado mais uma das milhões ou até bilhões de almas perdidas no mundo. Abri a janela. Vi um mundo cruel que me da ânsia só de lembrar, tinha virado parte da paisagem, parte dos dias cinzas. Aceitei, o que mais eu faria além de aceitar? O que mais eu faria se tudo o que me importava era o seu olhar? E até isso eu mandei pra longe. Foi pra te proteger, eu sei que foi, mas eu queria te ter aqui. Ah e sobre os teus olhos, eram como o céu durante a noite ou o fundo do mar. Azul, um azul tão negro como as mágoas que tu colecionava, conheço cada uma delas, curei cada uma delas. Olhei para o céu e estava cinza. Senti saudades e quis voltar. Você não permitiu, eu te entendo. Algumas cicatrizes demoram a cicatrizar, até mais que eu gostaria. Voltei para casa e era noite, abri a janela. O céu estava negro e eu só pensava nos teus olhos e em como eu nunca voltaria a vê-los. Sentei e chorei, não vi os dias, meses e anos. Passaram muitos, me encontrei mais velho do que lembrava ser. Te visitei, o dia estava azul como eu nunca tinha visto, amaldiçoei os deuses pois tu sempre gostou de dias azuis mas tu nunca conseguistes ver um, e agora que tu foi o sol resolveu aparecer, não tinha sentido o azul sem tu ali. Chorei. Vi tulipas jogadas perto do teu nome, resolvi tirar pois sei que tu não gostava da cor. Segui em frente, não por escolha, mas por necessidade.
findou (via findou)